O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre um assunto que, por muito tempo, foi tratado com silêncio e tabu: a saúde mental. Para a Rede Abrigo, essa conversa não pode ficar restrita a um mês do calendário, mas é nesse período de conscientização que reforçamos algo que defendemos o ano inteiro: cuidar de quem está em acolhimento vai muito além de garantir moradia, alimentação e escola. É preciso olhar para as histórias, os vínculos rompidos e as marcas que cada criança e adolescente carrega.
Para aprofundar esse assunto, convidamos uma psicologa de uma instituição de acolhimento da região metropolitana do Rio para falar como é a prática de quem trabalha com saúde mental dentro de um abrigo.
Falar sobre saúde mental no contexto do acolhimento institucional é falar sobre histórias marcadas por rupturas, perdas, medos, incertezas e, muitas vezes, por experiências traumáticas que antecedem a própria chegada da criança ou do adolescente à instituição . O acolhimento institucional tem como objetivo oferecer proteção e garantir direitos. Entretanto, para que essa proteção seja efetiva, é fundamental compreender que crianças e adolescentes acolhidos não chegam apenas com uma necessidade de moradia ou de cuidado. Eles chegam carregando histórias, vínculos rompidos, sentimentos, expectativas e, muitas vezes, sofrimentos psíquicos que precisam ser reconhecidos e acolhidos por uma rede preparada. Um dos grandes desafios está justamente na dificuldade de falar sobre saúde mental dentro das instituições de acolhimento. Em muitos contextos, ainda existe uma compreensão limitada sobre o sofrimento psíquico, fazendo com que determinados comportamentos sejam vistos apenas como “indisciplina”, “rebeldia”, “falta de limites” ou “mau comportamento”, quando, na realidade, podem representar manifestações de angústia, medo, tristeza, ansiedade, raiva ou consequências de experiências traumáticas . Outro aspecto importante é a presença de profissionais que nem sempre possuem formação ou capacitação adequada para compreender as especificidades do acolhimento institucional. Cuidar de crianças e adolescentes que passaram por situações de violência, negligência, abandono ou outras violações de direitos exige preparo técnico, sensibilidade e conhecimento sobre desenvolvimento infantil e adolescente, trauma, vínculos e saúde mental . Não basta garantir alimentação, higiene, escola e moradia. É necessário compreender o que existe por trás de cada comportamento e oferecer um ambiente capaz de proporcionar segurança emocional. Quando os profissionais não estão preparados, existe o risco de respostas inadequadas ao sofrimento apresentado pelos acolhidos, o que pode contribuir para o agravamento de conflitos e para a perpetuação de sentimentos de rejeição, abandono e incompreensão.
Também é necessário refletir sobre a atuação dos diferentes órgãos que compõem a rede de proteção. O Conselho Tutelar, por exemplo, possui papel fundamental na garantia dos direitos de crianças e adolescentes. Entretanto, na prática, podem existir situações em que profissionais ou serviços não estejam suficientemente preparados para lidar com demandas complexas de saúde mental e acolhimento. Essa dificuldade não deve ser compreendida apenas como uma falha individual, mas também como uma questão estrutural . É necessário investir continuamente em formação, capacitação, supervisão e articulação entre os diferentes serviços da rede.A criança e o adolescente não podem ser responsabilizados pelas fragilidades existentes no sistema de proteção . Muitas crianças e adolescentes acolhidos vivenciam situações extremamente dolorosas. Em alguns casos, são separados de seus irmãos, afastados de familiares e retirados do ambiente que, apesar de suas dificuldades, era aquilo que conheciam. Esse rompimento pode gerar sentimentos de culpa, abandono, saudade, raiva, medo e insegurança. Para um adolescente, compreender por que sua vida mudou repentinamente e lidar com a ausência das pessoas que faziam parte de sua história pode ser uma experiência profundamente angustiante . Além disso, muitos chegam ao acolhimento depois de vivenciarem diferentes formas de violência e negligência. São experiências que podem deixar marcas importantes na forma como estabelecem relações, confiam nos adultos, lidam com regras e expressam suas emoções. Por isso, é fundamental evitar julgamentos rápidos . Antes de perguntar “por que esse adolescente está se comportando dessa maneira?”, precisamos também perguntar: “o que esse adolescente viveu para chegar até aqui?”
Outro aspecto que merece atenção é a própria convivência dentro das instituições. Crianças e adolescentes acolhidos passam a compartilhar espaços com outras pessoas que também carregam suas próprias histórias de sofrimento. Essa convivência pode ser positiva e possibilitar identificação, amizade e construção de vínculos. Porém, também pode ser desafiadora, especialmente quando existem diferentes níveis de sofrimento psíquico, comportamentos de risco, conflitos e dificuldades de convivência. O sofrimento de um adolescente pode acabar repercutindo sobre os demais, principalmente quando não existem estratégias adequadas de manejo, acompanhamento psicológico e organização institucional . Por isso, o cuidado com a saúde mental não pode ser pensado apenas de forma individual. É necessário olhar também para o ambiente institucional como um todo, promovendo espaços de escuta, diálogo, prevenção de conflitos e construção de relações mais seguras. Para muitos adolescentes, o acolhimento representa uma ruptura com aquilo que conheciam e a entrada em uma realidade completamente nova. De repente, precisam viver sob os cuidados de pessoas que não conheciam, seguir novas regras, adaptar-se a uma nova rotina, dividir espaços e lidar com decisões que muitas vezes não conseguem compreender completamente.
E existe ainda uma pergunta que pode acompanhar silenciosamente cada um deles: “O que vai acontecer comigo?” As dúvidas sobre o futuro podem ser uma fonte importante de ansiedade. Não saber quanto tempo permanecerão acolhidos, para onde irão, se retornarão para a família, se serão encaminhados para outro local ou como será sua vida após o acolhimento pode gerar insegurança e sofrimento. Por isso, sempre que possível, é importante incluir o adolescente nas conversas sobre sua própria trajetória, respeitando sua idade e seu nível de compreensão. Ter informação, poder perguntar e ser ouvido também são formas de cuidado. Falar sobre saúde mental no acolhimento institucional é compreender que o cuidado não se limita à consulta com o psicólogo ou ao acompanhamento psiquiátrico quando necessário . Saúde mental também envolve a possibilidade de construir vínculos seguros, ser ouvido, ter sua história respeitada, manter vínculos familiares quando isso for possível e saudável, conviver em um ambiente protegido, ter acesso à educação, ao lazer, à cultura e à profissionalização e, principalmente, sentir que sua existência e sua história têm valor.
Precisamos construir uma cultura institucional em que o sofrimento não seja tratado como problema de comportamento, mas como algo que precisa ser compreendido. Isso exige profissionais preparados, equipes qualificadas, serviços articulados e uma rede de proteção que realmente funcione de maneira integrada.Mais do que acolher corpos, precisamos acolher histórias. Mais do que estabelecer regras, precisamos construir segurança. Mais do que perguntar “o que esse adolescente fez?”, precisamos aprender a perguntar “o que aconteceu com ele e do que ele precisa para reconstruir sua história?”
Investir em saúde mental dentro do acolhimento institucional é investir na possibilidade de que crianças e adolescentes tenham um futuro diferente daquele que as circunstâncias de suas vidas inicialmente lhes apresentaram. É reconhecer que proteção integral também significa cuidar das emoções, dos vínculos, da dignidade e das possibilidades de futuro.